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Mensagem por Sub Versão em Sex Nov 30, 2012 1:42 pm

Putz essa é a continuação de um outro conto, mas dá pra entender mesmo que não tenham lido o outro.

Long ficou em Oxipolis por dois anos e meio, clandestinamente, e ganhava muito dinheiro com muamba. Montou um laboratório modesto e passou a estudar o cérebro do alienígena nas horas vagas, mas quanto mais o tempo passava mais obcecado ele ficava pelo cérebro. Costumava passar horas sozinho com o cérebro nas mãos, e relaxou no trabalho de muambeiro. Parecia um viciado em drogas pesadas, alimentando idéias fixas de assassinato e experiências químicas com cadáveres.
Um ano e meio após o incidente na estação petroleira e sua chegada à Oxipolis Long sucumbiu, e assassinou um mendigo com uma facada.Este crime nunca foi descoberto. Um ano depois disto ele matou uma striper e três homens que nunca tinha visto antes. Atirou com uma calibre 12 em dois dos homens. A striper e o último dos homens se renderam. Long os desacordou na coronhada.Quando eles recuperaram os sentidos já estavam com a corda no pescoço. O homem logo percebeu que ia ser enforcado.
-- Espere... espere... -- disse ele com um nó na garganta, se esforçando para derramar suas últimas lágrimas. -- Não faça isto, vamos lá. Não vai conseguir esquecer nunca mais.
Long respondeu:
-- Não tem importância.
-- Ah, não, não, nãão! -- a striper percebeu que ia morrer. -- Não faça isto comigo. Não! Nããããão!
Long os enforcou mesmo assim e voltou para sua casa. Mas desta vez os detetives desvendaram o crime e Long foi obrigado a fugir de Oxipolis. Resolveu, então, voltar para Maverich. Comprou roupas novas e deu um trato no visual. Pegou a estrada levando o cérebro do monstro em uma mochila nas costas, pedindo carona.
Pouco tempo depois de chegar à Maverich Long conheceu Arina e os dois se apaixonaram. Mantiveram um relacionamento profundo que durou mais de dois anos. Arina tinha um irmão mais novo, Jorge. Ele se envolveu no mundo das drogas. Acabou levando nove tiros, três meses antes de se completarem dois anos desde o início do namoro de Arina e Long. Ele tinha apenas quinze anos e entrou em coma. Arina era estudante de medicina e estagiava no mesmo hospital em que seu irmãozinho estava internado.
No exato dia em que completavam-se dois anos de namoro, uma terça-feira, Long e Arina fizeram uma pequena comemoração à noite, no apartamento miserável que Long alugava. Foi então que Long resolveu contar a Arina tudo pelo que tinha passado.
Arina não acreditou em uma palavra mas Long mostrou o cérebro do alienígena a ela, algo inédito para Long que, desde o momento em que deixara a Antártida, no dia em que matara Chadu, nunca tinha deixado ninguém ver ou tocar o cérebro do alienígena.
Uma semana depois Arina matou Long e roubou o cérebro, que levaria também a ela pelos caminhos da obsessão.
Arina continuou os estudos das propriedades do cérebro. Um mês depois de ter matado Long, ela triturou o cérebro do alienígena e misturou o pó que sobrou (do cérebro) com líquidos químicos diversos. Obteve um litro desta mistura, e injetou ansiosamente em sua própria corrente sangüínea, uma dose.
No começo nada aconteceu. Mas no dia seguinte ela acordara completamente suja de sangue, nos túneis dos esgotos, com gosto de carne humana na boca e não tinha a menor idéia de como chegara ali. Em lapsos de memória, ela se lembrava confusamente de como fizera para matar suas vítimas e devorar os órgãos internos enquanto o sangue ainda estava quente, como um animal assassino.


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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Sex Dez 14, 2012 3:36 pm

O irmão de Arina

Aos quinze anos de idade Jorge ficou devendo dois mil reais para um traficante. Em vez de mandar matá-lo, o traficante disse que Jorge devia matar um policial chamado Alonso, e sua dívida estaria perdoada.
Alonso fazia a segurança em um estádio de futebol durante o jogo da quarta-feira. Depois do jogo, nas ruas, houve uma imensa briga envolvendo torcidas rivais e a polícia. Jorge aproveitara-se da situação; emboscou Alonso e deu dois tiros na cabeça dele. O parceiro de Alonso saiu em perseguição ao garoto. Depois de correr por cinco quarteirões, pular uma grade de aço e continuar correndo até um beco estreito, úmido, fedendo a mijo e lixo, o parceiro de Alonso acertou um tiro no ombro de Jorge. O garoto caiu no chão com o impacto.
A dor alastrou-se e ele vislumbrou a morte nos olhos cadavéricos do policial. Um sorriso cruel e sádico iluminava o semblante dele quando pisou nas costelas de Jorge e apontou a arma direto para o peito do adolescente. Apertou o gatilho três vezes. Os tiros ecoaram pela noite sinistra. Então o policial ía embora, abandonando ali o jovem para que agonizasse até a morte quando Januário, o traficante, e alguns amigos dele apareceram no beco para que o policial pudesse vê-los. Então mais tiros foram disparados, estampidos brutais e reverberantes que impregnam as noites com o cheiro de pólvora e sangue. O policial não teve chance. Quando caiu no chão já estava morto. Jorge não teve tanta sorte. Januário caminhou até ele e disse:
-- Sabe, amigo, eu tenho 37 anos. A vida é dura, principalmente na cadeia. Fiquei dez anos preso. Não era pra ter sido assim, vou ter que sacrificar você! -- a palidez ía tomando conta do rosto de Jorge.
O silêncio foi macabro durante um momento. Januário mirou. CLIC CLAC... BANG.BANG.BANG.BANG.BANG.BANG.BANG.BANG.BANG. O sangue sujou tudo. Dor e trevas.
As sirenes dos carros da polícia vinham chegando. Januário e seus amigos desapareceram nas sombras densas das vielas de Maverich, a cidade dos ricos. No beco ficaram apenas o cadáver do policial e o corpo peneirado de balas de Jorge, que foi parar na UTI, em coma.


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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Qui Fev 07, 2013 11:05 pm

Na primeira vez em que Arina perdeu o controle, os jornais notificaram dois assassinatos. Entrevistados disseram, em rede nacional, que viram uma mulher, de cuja boca saíam tentáculos, invadir um bar lotado aproximadamente às 11:30 da noite, matar e esquartejar duas pessoas e depois carregar os pedaços delas para dentro do sistema de esgoto.
O pânico espalhara-se pela cidade, consumindo a mente e o espírito das pessoas como as chamas de um incêndio devoram a matéria.
Desnorteada, suja e muito fedorenta, Arina voltou para a casa dela. Imagens nefastas e desconexas de uma violência brutal violavam-lhe a mente, enquanto ela tomava um banho, desesperadamente tentando manter a sanidade. Já era mais de meio-dia. Era melhor ficar em casa. Mal-estar. Confusão mental. Ela correu para o banheiro e vomitou. Vomitou muito. Sentia dor de tanto vomitar. Vomitara um sangue que não era dela. DESESPERO. Melhorou um pouco. A dor diminuiu. Ela levantou a cabeça e se olhou no espelho, mas o que seus olhos horrorizados viram não podia ser o reflexo dela, pois ali, no espelho, ela via a efígie de uma abominação saída dos abismos negros além do tempo e do espaço, em cujos olhos envolventes fulgurava o mais puro mal. Ela se assustou e saiu da frente do espelho.
Arina perdera a noção do tempo, que parecia flutuar dentro da mente dela apenas abstratamente, sem valor dentro da realidade da matéria da vida humana, da qual, lenta e implacavelmente, ela se distanciava cada vez mais. Em algum momento, um sabor novo surgira na mente dela, a princípio como um filete d'água, mas ganhando volume rápido e logo dominando por completo a mente obcecada de Arina. Então ela criou coragem e olhou, ansiosamente, no espelho de novo. E novamente ela viu um monstro ao invés do reflexo dela. Porém, desta vez foi diferente. Ela gostou... e passou longos minutos apreciando o semblante da monstruosidade com uma languidez grotesca. Mas ela estava fraca e cansada. Resolveu dormir um pouco.
Quando Arina acordou ela estava nos esgotos. Havia muito sangue, vísceras e odores nauseabundos. A escuridão e o suave som de água corrente. Ratos. Baratas. Gritos chamaram a atenção dela. Desta vez, a polícia estava procurando-a pelos túneis do esgoto e estavam perto. Mas ela conseguiu fugir, indo para a superfície. Logo os policiais chegariam à cena do crime mas ela não estaria lá.
Era de madrugada. Arina roubou um carro e foi até a casa onde morava. Pegou uma seringa, preparou uma injeção de Vacinali-N (nome que escolhera para o composto químico que criara) e escondeu o restante no porão, em um baú cheio de fotos antigas e roupas que ela usava quando era uma criança ingênua, que não serviam mais e que, no entanto, ela não tinha coragem de jogar fora. Depois, apressadamente, dirigiu o carro que roubara até o hospital onde Jorge estava internado, em um coma profundo como os precipícios oceânicos. Ela estava horrível, fétida, impregnada com a sujeira dos esgotos. Dois seguranças do hospital se dirigiram a ela e tentaram fazê-la voltar um outro momento:
-- Sinto muito, senhora, é melhor voltar depois de tomar um banho.
Arina os ignorou, desviando deles, mas eles entraram de novo na frente dela, desta vez com hostilidade indisfarçada no olhar.
-- Você não parece estar doente, sua porca! -- disse um deles -- Então é melhor... aaaarghhhhhhhh.
A frase do segurança do hospital foi interrompida violentamente, e transformara-se no estertor da morte dele. Um estertor que reverberou pelos corredores do hospital tal um calafrio que corre a espinha de um ser humano. Arina matara-o com os tentáculos gosmentos que nasciam de dentro das entranhas dela. Primeiro esmagara-lhe a cabeça e, arrancando-a do pescoço, a devorou, dilacerando-a com dentes afiados e grotescos, transformando-se n'um monstro. O outro segurança, completamente assustado, não esboçou reação e o destino dele foi igualmente aterrador.
O hospital esvaziara- se rapidamente depois disso. As pessoas entraram em pânico. Todos fugiram o mais rápido possível. Mesmo assim, em seu caminho até o leito onde Jorge estava em coma, Arina matou mais dez pessoas. Sangue. Vísceras. Morte. O som das sirenes dos carros de polícia vinha de todos os lados. Policiais destemidos ou loucos entravam no hospital para se deparar com a insanidade dos gestos de uma assassina além da compreensão deles. Ela não tinha tempo a perder.
Finalmente, Arina encontrou Jorge. A última coisa de que ela se lembra é de ter aplicado a vacina nele. Então, imediatamente, a realidade ao redor dela ficou turva, os sons ao redor vinham de uma origem exterior longínqua e, mais uma vez, ela perdeu o contato com o plano material da existência humana. Jogado nas trevas dos abismos além do tempo e do espaço, o espírito dela cambaleava através dos vórtices negros do sombrio destino que ela escolheu.
Ao recobrar a consciência, ela estava algemada no interior de uma estação de pesquisas científicas do governo. Durante meses ela foi torturada, estudada e interrogada. Então, um dia, ela disse onde estava o Vacinali-N.
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Dom Mar 10, 2013 2:36 pm

Jorge acordou (do coma) em outro caos, completo e louco como a morte, e real. Logo de cara, ele era um monstro dominado completamente pelo DNA alienígena.Quando ele acordara, minutos depois de Arina ser capturada, já não havia mais ninguém naquele quarto do hospital.
Ele soltou uns urros horripilantes que foram ouvidos em todo o imenso hospital. Pânico. O único raciocínio de Jorge naquele momento foi a idéia rudimentar de fuga e medo. A primeira coisa que ele vira foi uma janela, e se encaminhou para lá e pulou em cima dela. Caiu do quarto andar direto no chão e ficou lá durante quarenta minutos como se estivesse morto. Porém ele não estava morto, nem em coma, mas em uma simbiose alienígena.
***
Dor. Jorge acordou novamente. Havia uma equipe de bombeiros e muita gente curiosa ao redor. O medo instintivo dominou-o novamente, e ele abriu caminho por entre essa gente toda derramando sangue. Foi correndo pelos becos, sem direção, deixando atrás de si um rastro de corpos humanos decaptados ou mutilados de alguma forma. Quatro pessoas tiveram as vísceras devoradas pelo alienígena. Quando a fome foi saciada Jorge recuperou um pouco o autodomínio e desceu para os esgotos. Hora ele gritava como um ser humano, endoidecido por vozes que soavam como sussurros contínuos nos ouvidos dele sobre os quais ele não tinha controle. Correndo pelos túneis escuros, em meio aos odores fétidos do esgoto, em meio aos roedores, Jorge passava por uma metamorfose brutal e percebia-se dentro dentro de um outro ser, a Vacinali-n. Nestas horas ele guinchava e todos os sons que saíam da garganta dele eram inumaos e terríveis como a voz de um cachorro endoidecido pela sede de matar.
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Ter Mar 12, 2013 11:15 pm

Desta forma Jorge chegou ao bairro dos SCÓs, a gangue do Januário. Toda a polícia de Maverich estava louca. Fazia frio e parecia que ía chover. A forma alienígena de Penêra tinha tirado as vidas de três polícias e oito civis em seu trajeto desde o hospital até o bairro dos SCÓs. Surgindo do esgoto, tomou a rua e foi direto ao AT NIGHT SCHORIA, uma espelunca onde ele podia encontrar Januário. Penêra matou dois seguranças e se aproximou da porta de entrada. De dentro vinha um som de música muito alta. Penêra abriu a porta e o som de música muito doida explodiu nos tímpanos. Começou a chover torrencialmente. Por quinze minutos o movimento parou, houve muitas quedas de árvores e danos na rede elétrica.
Manêro James era o dj do At Night, casa noturna cheia de pixaçôes internas. Tinha um público pequeno. Naquele momento, ali, havia apenas 17 pessoas mas a música estava muito alta, n'uma verdadeira barulheira.
No subsolo do clube havia uma refinaria de cocaína e era lá que januário estava. Apesar de tudo, as pessoas que estavam no salão do bar, no piso acima, curtiam o som, e Manêro James provava que sabia o que estava fazendo em se tratando de música. Até o momento estava tudo normal.
***
James viu, por acaso, quando, pela porta do ATN, entrou Jorge, que todos tinham certeza de que estava morto.
Mas antes que Manêro entendesse qualquer coisa Penêra enlouqueceu e o alienígena tomou o controle. Tentáculos saíram das costas dele e, em 5 segundos, ele matou 5 pessoas e arremessou um imenso amplificador contra a mesa de som, destruindo toda a aparelhagem, interrompendo de uma vez por todas, imediatamente, a música. As trovoadas e a chuva podiam, a partir de então, serem ouvidas dentro do ATN, junto com os gemidos e estertores de 5 jovens que tiveram os membros arrancados ou as vísceras espalhadas pela parede.
Manêro quase dançou nessa. Quando a mesa de som foi destruída ele estava atrás (da mesa) e teria sido esmagado se não tivesse pulado para o lado sem pensar.
Ao interromper brusco da música alta Penêra voltou à forma humana. Olhou para os rostos das pessoas ali presentes. Medo. Horror. Alegria mórbida. Penêra deixou as pessoas restantes fugirem dali como se fugissem do pior pesadelo deles.
-- Vão embora daqui. Espalhem a notícia. Digam que estou de volta e que, de agora em diante, sou o líder da SCHORIA. -- disse Penêra.
Todos saíram correndo mas Manêro James resolveu ficar, já que ele estava presente no dia em que acharam que tinham matado Jorge.
Januário estivera refinando no porão da casa noturna. Ouviu uns barulhos estranhos. Então um silêncio. Ainda mais estranho. Ele subiu uma escada que levava até a porta atrás do balcão, no salão do bar, e ficou ali, vendo todos aqueles cadáveres espalhados pelo chão, todo aquele sangue, todo aquele sofrimento, e se lembrou de coisas que tinham acontecido na vida dele há muito tempo, quando ele era apenas um adolescente com uma faca nas mãos e muito ódio no olhar.
Januário ficou ali com uma arma de calibre 12 apontada para Penêra.
-- É melhor para você ir embora daqui enquanto ainda pode. -- disse Januário.
-- Cuidado! -- gritou Manêro.
Penêra deu um bom passo. BOOM. O tiro estraçalhou o peito dele, derrubando-o no chão. Parecia que Januário tinha matado Penêra. Apenas por um momento.
-- Merda!
Dois guarda-costas de Januário estavam escondidos. Eles tinham Penêra sob mira mas quando o último levou o tiro disparado por Januário, os guarda-costas baixaram a guarda. Ouviram um som horrível produzido pelo monstro alien e foram laçados por tentáculos que esmagaram os pescoços deles. O alienígena tinha tomado o controle. Imobilizou completamente Januário, deixando-o à sua mercê. Ele encarou Januário assustadoramente. Então o rosto voltou a ser de Jorge e Januário quase se acalmou um pouco.
-- Cale a boca por um momento e apenas escute. Me chame de Penêra. A partir de agora eu sou o líder e vocês vão me obedecer até que morram. Então estarão livres e ressucitarão.
Parecia que estavam na frente de uma coisa que só poderia existir no mundo dos pesadelos. A situação era grave. O peso de uma escolha terrível caíra sobre as cabeças daqueles criminosos de repente. Penêra soltou Januário e, dando uma volta pelo ensangüentado salão do bar, cheio de cadáveres, foi falando estas palavras:
-- Pensem nos ganhos. Vejam que, caso recusem, as perdas serão grandes e, no final, estamos do mesmo lado. Vamos continuar no crime. Vamos expandí-lo e dominar o submundo. Vocês, meus caros, têm a oportunidade de fazer parte disso. É pegar ou largar.
-- Está louco! -- disse um dos bandidos. descarregou uma 9 mm nas costas de Penêra. A fúria se apossou deste último, que matou o bandido e devorou as tripas dele. Voltou-se, então, para os outros bandidos. Todos perceberam que íam morrer ali, naquele momento. O alienígena pulou em cima de outro bandido. Gritos grotescos de horror e morte.
Januário tentou fugir. O monstro alienígena o alcançou. Envolveu o pescoço de Januário com tentáculos infernais, sufocando o traficante. Certamente esta seria a morte do bandido se Manêro James não tivesse, em meio ao próprio desespero, gritado:
-- Não, Penêra! Não nos mate. Nós vamos servir a você.
Penêra libertou Januário e disse:
-- Então me sigam.






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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Dom Dez 04, 2016 4:29 pm

A partir de então, nos dias que se seguiram Peneira cresceu no controle da região.
O dia seguinte estava amanhecendo. A enchente tinha passado, mas a cidade estava esburacada. Em alguns locais houve deslizamentos de terra. Ninguém ficou ferido, mas algumas famílias perderam suas coisas.
Dois policiais conversavam em seu carro. Eles eram um tenente e um subtenente. Seus nomes eram, respectivamente, Jairo e Kajo. Juntos eles comandavam uma força de centenas de policiais. Estavam procurando por Peneira nas ruas do centro de Maverich.
- O quê que eu tô fazendo aqui, mas que droga?! – disse o tenente Jairo, com um sorriso.
- Tá reclamando por quê? – respondeu o subtenente Kajo.
- Como ousa, seu bastardo maldito? Eu devia mandar você pra julgamento por causa disso... mas...
- Senhor? Mas o quê, senhor?
- Você é meu braço direito. Com sua ajuda vou pegar o bastardo que matou o general. O problema é que nós temos algumas coisas pra resolver primeiro. E isto vai levar algum tempo. O que sabemos até aqui?
- A informação está neste lugar que abre quando você puxa...
- Você tá engraçadinho hoje, não é? Você sabe o que eu faço com os engraçadinhos?
- O senhor quer que eu responda, senhor?
- É claro que não.
Eles prosseguiram em seu veículo. O tenente abriu o porta-luvas e releu o relatório.
Chegaram a um semáforo. Pouco adiante estava uma equipe de trabalhadores de Maverich. Usavam uniformes do MSANM (Manutenção dos Sistemas de Saneamento de Maverich).
O tenente e seu “braço direito” sabiam de praticamente tudo o que queriam. O subtentente tinha um hobby. Tinha os conhecimentos de um hacker, o que facilitava o seu acesso aos conhecimentos disponíveis em toda a web. Somado às informações específicas que a polícia local disponibilizava em seu banco de dados, tinham uma ótima ferramenta investigativa.
- Por enquanto somos incapazes de chegar perto dele, mas em breve o encontraremos. Então ele enfrentará toda a fúria do nosso batalhão especial. Está comigo?
- Sim, senhor! – exclamou o subtenente.
O rádio tocou. O tenente atendeu:
- Na escuta.
“tem uma cena de crime no Morro dos Cavalos”, saiu uma voz distorcida no rádio.
Para lá se dirigiram os policiais.
                                           () () ()
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Qua Dez 21, 2016 9:47 pm

Januário tinha inúmeros rivais em seus negócios. Todos conviviam em paz até então.
Naquela manhã Peneira e Januário estavam sozinhos em um veículo. Januário estava dirigindo. Sentado no banco do passageiro, Peneira falou:
- Ei, Januário, não pense que eu confio cegamente em você. Você é uma figura marcante na minha história. Eu me lembro do que fez da última vez.
- Chefe, fica na boa, o que eu podia fazer? Chamar um médico? Eu...
- Não precisa se justificar, não.
- Você acha que essa é uma boa ideia?
- O quê? Terminar de matar alguém que já está morrendo? É melhor você não brincar comigo. Você vai ver o que acontece com quem brinca comigo.
- Eu não estou falando disso.
- Eu sei do que você está falando. Era só uma piada. Sua pergunta também parece uma piada.
- Talvez fosse.
- Não está com medo de mim?
- Ontem à noite, você quase me matou.
- Então por que você não está sentindo medo?
- Eu estou com medo, chefe, mas se me quisesse morto, já teria feito.
- É, você tem razão. Não se preocupe. Em breve você vai ter motivos pra ter medo. Muita gente vai ter medo de mim. Você vai ver.
Januário desligou o carro. Estavam perto de uma praça. Na praça havia doze homens. Januário disse:
- Aqueles são membros de uma gangue que trabalha pro Carrapato.
- Pega a câmera e filma tudo.
De dentro do carro, eles começaram a filmagem.
- Eu sou Peneira, e este é meu braço direito, Januário.
- É issaê! – exclamou Januário.
Peneira retomou a fala:
- Hoje vocês, meus caros psicopatas da Teia Abissal, vão testemunhar uma breve negociação no mundo do crime.
Então eles saíram do carro e caminharam por uma rua, pouco antes de serem abordados por um menino com uma arma de fogo. Ele disse:
- O que é que vocês querem aqui? Vão embora se não quiser morrer!
- É melhor você nos levar até seu chefe, pirralho, senão eu vou perder a paciência.
- Faz o que ele tá mandando, moleque! – gritou Januário.
Reconhecendo o bandido, o menino encontrou seu chefe, na praça, e o avisou que havia gente filmando tudo. O chefe do bando foi ver o que estava acontecendo. Encontrando Peneira e Januário ele disse:
- Em que posso ajudá-los, cavalheiros?
Peneira respondeu:
- Que papinho é esse aí? Vô mandar a verdade logo de cara, mané! Tu vai trabalhar pra mim agora.
- O quê? Mas o que é isso?! – exclamou o chefe do local, buscando sua arma. – Se tava querendo morrer, agora vai se arrepender!
Peneira, no entanto, foi mais rápido e se transformou no alien sinistro. O bandido chefe do local atirou, mas o disparo atingiu seu próprio comparsa, pois a mão do chefe bandido foi desviada pelos tentáculos de Peneira. A seguir, este último desarmou o chefe bandido com seus tentáculos gosmentos alienígenas. O pescoço do bandido foi envolvido. Gritos e guinchados inumanos. No olhar da vítima: o desespero.  
Peneira virou a cabeça de seu oponente em trezentos e sessenta graus. SNAP. E o bandido estava morto. Seu corpo escorregou sombriamente para o chão, inerte. Semente da destruição na atmosfera do medo.
Os outros ao redor, com espanto olhavam para Peneira.
Januário continuava a filmar. Ficava oculto por trás da câmera. Apenas sua voz era ouvida. Ele disse:
- Quem não obedecer o Peneira como novo chefe vai ter o mesmo destino deste idiota!
Peneira voltou à forma humana e disse:
- Não se espantem! Eu não vou eliminar o crime ou os criminosos. Apenas quem não me obedecer. Se alguém quiser me desafiar agora, terá uma morte rápida como este pobre coitado que achava que era o bandidão. Mas se depois deste momento qualquer um de vocês tentar me desafiar, terá uma morte lenta. Dolorosa.
Todos pareciam estar com medo.
Mesmo assim, três pessoas ousaram desafiá-lo. O primeiro tentou atacá-lo com uma faca, mas acabou com o estômago atravessado pelos tentáculos de Peneira. Outro atirou em Peneira com uma arma de calibre 12, atingindo suas costas e jogando-o no chão, destrutivamente.
O sangue verde de Peneira se espalhou no chão. Todos olharam para o autor do disparo, com exceção de Januário, que continuava filmando Peneira.
Foi como na noite anterior.
Após um breve período de tempo, Peneira se levantou. Seus tentáculos se moveram com agilidade. Envolvendo as pernas de seu inimigo, e puxando-as em direções opostas com a força da simbiose alienígena, Peneira partiu simetricamente seu oponente em dois. Tal é o poder de seus tentáculos fatais.
Em seguida uma bela jovem tentou atacá-lo. Ela gritou:
- Seu monstro! Você é o demônio!
Ele matou a ela também. Depois disse:
- Sim, eu sou um monstro e vim aumentar o poder do crime! Vocês se contentam em ganhar um pouco de dinheiro, mas eu lhes ofereço a oportunidade de mudar a realidade e inverter a ordem natural das coisas. A total corrupção do espírito humano! HAHAHA
- Que melodrama, hein, chefe? – disse Januário.
- Espero que tenha gravado tudo senão você terá se tornado um inútil...
- Eu sei o que o chefe faz com os inúteis. Escutem aqui, todos vocês que sobreviveram à fúria assassina de Peneira, o monstro. Vocês devem ficar em silêncio sobre o que viram hoje. Quem der com a língua nos dentes já sabe. Este vídeo vai ser divulgado apenas nos mais obscuros sites da Internet. Desta forma, nós aumentaremos a fama de nosso chefe. Quanto mais tiverem medo dele, mais ele será obedecido.

() () ()

Mais tarde os policiais chegaram ao local. Encontraram os corpos. Estavam todos perto da praça. Havia sangue espalhado para todos os lados.
O subtenente disse:
- O que foi isso? Antigamente as pessoas só atiravam umas nas outras.
A cena era devastadora. Não havia espaço para humor. Apenas a seriedade do medo e da pilha de corpos. Ainda assim, o tenente respondeu:
- Ora, não fique assim tão abalado. Esses eram caras maus.
- O cara que matou o cara mau... mas o que é isso?
Eles observaram a cena e separaram uma amostra do sangue esverdeado que Peneira deixara no chão, quando levara um tiro.
Outros policiais se aproximaram da cena. O tenente e seu “braço direito” se afastaram.
Pouco depois pararam em um restaurante para almoçar. Após comer conversaram.
- Você acha que foi quem procuramos?
- Acho que devíamos voltar lá há noite. Talvez possamos interrogar alguém.
Depois levaram as evidências para análise laboratorial.
                                               
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Sab Fev 04, 2017 4:52 pm

Após a análise o geneticista estava observando o sangue verde de Peneira em um microscópio, mas disse:
- Não se preocupem com isto. Não é nada demais. É só uma tinta. Não poderia ser uma evidência.
O tenente disse:
- Você tá brincando comigo, não é, doutor?
- Sinto muito desapontá-los. Isto não é material genético. A estrutura celular não apresenta formações mitocondriais. Só pode ser uma estrutura inorgânica.
- Até mais, doutor. Na próxima, quem sabe...
O tenente e o subtenente saíram do laboratório.
- Você acreditou nele? – perguntou Jairo, o tenente. O subtenente, Kajo, respondeu:
- Não, e você?
- Tem alguma coisa errada. Ele está mentindo. Só não sei por quê.
Dentro do laboratório o geneticista, pegou o celular e digitou um número. Após oito toques, um homem atendeu. Sua voz era forte. Transmitia experiência e poder.
- Pode falar. – disse o homem que atendeu a chamada do geneticista.
- Você não vai acreditar em quem apareceu aqui, e o que eles trouxeram. Eu disse pra eles que a evidência não era válida, mas não tenho certeza se acreditaram. Pelo menos eles pararam de fazer perguntas.
- Eu não estou entendendo. Que evidência é esta?
- É sangue alienígena. A formatação de seu DNA é semelhante à do espécime que entrou esta noite, emergencialmente, nas instalações científicas do governo. No entanto, parece diferir em alguns aspectos.
- E onde eles encontraram o tecido?
- No Morro dos Cavalos, em uma cena de crime.
- Então, nosso amiguinho teve uma manhã agitada... Bom trabalho, meu caro. Se os policiais te procurarem de novo, dê meu telefone para eles. O resto é comigo.  
A ligação foi interrompida.
O nome do geneticista é Molares Brankos.

                                             ()()()

A noite chegou. Já fazia várias horas que Jairo e Kajo estavam no Cyber Café. Neste lugar, vasculhavam os terrenos sombrios da Teia Abissal em busca de alguma pista. Encontraram o vídeo de Peneira, matando o chefão do Morro dos Cavalos e outros membros de sua gangue.
- É isto mesmo, não é? – disse Kajo – olha só este tiro que ele levou. Só pode ser sangue aquilo que a gente entregou pro geneticista.
- A gente devia era descer um sacode neste Molares, mas é melhor deixar pra lá por enquanto. Só que agora a gente sabe que não pode mesmo contar com ele.
Os policiais saíram do Cyber café. Entrando no carro voltaram à cena do crime. De dentro do carro, ficaram observando por alguns momentos. A seguir ligaram o carro e deram uma volta. Chegaram a um bar. O entra-e-sai pareceu suspeito.
Os policiais entraram no bar.
- Somos da polícia e queremos ver os bastidores desta pocilga!
Eles foram levados por um corredor até um grande laboratório de refino de cocaína. Lá eles encontraram Peneira, sentado em uma cadeira que parecia um trono, enquanto mulheres seminuas manipulavam as substâncias químicas tóxicas. Máscaras respiratórias.
- Ora, ora, se não são os policiais da quebrada... vocês vieram atrás do dinheiro? Porque eu to assumindo hoje e to precisando, sabe, de um tempinho pra lucrar. – brincou Peneira.
- Não tente fingir que é engraçado. Alguém pode acabar se engasgando.-  respondeu o subtenente.
- Quanta rispidez. Vocês, policiais, são treinados para ser assim, ou só são assim?
- Você o escutou! – interveio o tenente – a brincadeira acabou. Nós sabemos que você é culpado das mortes de três pessoas que foram assassinadas hoje de manhã.
- E onde é que estão as provas? Um vídeo na Teia Abissal? Não pode ser considerado uma evidência. Como podem saber se é autêntico ou não?
O subtenente respondeu:
- Não importa. Nós sabemos que você é culpado, e que é um monstro. Vamos pegá-lo por causa do que fez com aquele policial no dia do jogo.
Peneira riu.
- Escutem aqui, eu tô perdendo a paciência com vocês. Fiquem sabendo que eu só vô deixar vocês saíram daqui vivos porque fui informado... eh... de que um certo grupo de extermínio é sediado em Maverich. Eu estou ansioso para conhecê-los. Senhores, agora, vão embora daqui!
Os policiais foram acompanhados por mais de duas dúzias de homens armados até a saída.
Entraram no carro e partiram.
                                               ()()()  

No carro conversaram, enquanto se movimentavam.
- Vamos voltar à delegacia? – perguntou o subtenente.
- Não... vamos até o mariposa rebelde.
- Qual é o motivo?
- Está questionando as minhas ordens, soldado?
- Senhor, sim, senhor?
- O quê?! Seu bastardo maldito! Eu devia acabar com você!
- Quer dizer... não, senhor, eu não, senhor, eu não estou questionando as suas ordens, apenas tecnicamente...
E assim eles chegaram ao Mariposa. Havia ali cerca de cinquenta pessoas. O segurança tentou impedir a entrada dos policiais, mas desistiu ao ver as suas identificações distintivas credenciais.
- Tá vendo isso aqui? Polícia!
Eles entraram.
O ambiente era escuro, banhado apenas esporadicamente, por luzes coloridas, como a aleatoriedade do mundo real, flutuando, solta, na bruma de palavras nebulosas.
Ouça as risadas e os sorrisos das mulheres belas, vestidas para encantar e seduzir, pintadas com o amor e a volúpia. Então eles viram os jogadores apostando, e as dançarinas dançando, se exibindo, decorando o lugar. Ao mesmo tempo, maravilhando olhares sedentos, luxuriosos e cheios de fantasia e horror. Esta é uma história de horror.
Encontraram o geneticista, bebendo cerveja, aos pés de uma dançarina.
- Como sabia que ele vinha aqui? – perguntou o subtenente.
- Como você acha?
Antes de qualquer chance de dizer alguma coisa, apareceram garçonetes com decotes e bandejas nas mãos. Uma delas se aproximou e abraçou o tenente.
Ele disse:
- Hoje não temos tempo para isto, meu amor, estamos procurando apenas o idiota do Molares.
As garçonetes foram embora, e o geneticista chegou.
- Muito bem, rapazes, vocês têm fama de serem durões e de saberem interrogar um homem. – disse ele - Antes que comecem a me agredir, eu vou lhes dar este cartão. É da pessoa que me deu ordens para guardar segredo sobre a evidência que trouxeram ao meu laboratório mais cedo.
- Como sabia que íamos falar sobre isto? – perguntou o subtenente.
- Eu pude ver em seus olhos que vocês não acreditaram na história que eu contei.
- Tudo o que sabemos é que você mentiu pra nós e agora queremos entender por quê.
- Todas as respostas lhes serão dadas pela pessoa no telefone.
Eles ligaram para o número do telefone. Um homem, nadando apenas com uma mulher em uma piscina, fumando charuto ouviu o telefone tocar, e mandou embora a garota. Ao atender ele disse, enquanto usava uma boia para flutuar na piscina:
- Muito bem eu sabia que iriam telefonar. Eu sou o capitão Wernstrom da polícia da grande Maverich. Temos ordens diretas de manter sigilo sobre a disseminação da Vacinali-N. De outra maneira, apenas pânico seria criado. Apesar disso, eu tenho uma missão pra vocês. Quero o fim deste monstro imediatamente, está nas suas mãos acabar com ele.
Ele desligou.
- Como vêem, eu não menti de má-fé, mas apenas para cumprir ordens.
- Você é um idiota, sabia, geneticista?
Eles foram embora dali. Antes de chegarem ao carro, o subtenente comentou:
- Pior que o Wernstrom não respondeu nada.
- É verdade, mas pelo menos deu pra entender que o sangue verde era do Peneira e que devemos trabalhar nas sombras.
Entraram no carro. Após o som das portas do veículo batendo, ao fechar, o subtenente disse:
- Eu pensei que a gente ia trabalhar no caso.
- É mesmo!
Antes de ligar o veículo o celular do tenente tocou:
- Podemos nos ver na delegacia? Queria falar pessoalmente.
- É claro.
Passaram na delegacia. Entraram por uma sala de recepção e desceram dois degraus pequenos, que conduziram a um balcão. Atravessaram o balcão e entraram por uma porta, pouco após o balcão.
Caminhara por um corredor e chegaram a outra sala cheia de computadores e pessoas atrás deles. Uma destas pessoas era uma mulher bela que se levantou e lhes lançou um olhar, dirigindo-se para uma escada circular e atingindo o andar de cima. Então caminharam até uma mesa:
- Muito bem, eu chefio o setor logístico local, e tenho boas notícias para vocês. A minha beleza é apenas externa. – disse esta mulher.
- Helena, pare de brincadeiras – respondeu o subtenente – como algo tão absurdo podia ser uma boa notícia?
- Não me peça para explicar – disse ela – porque nem se fizesse um desenho você entenderia.
O tenente disse:
- Ora não fique assim com o Kajo. Afinal de contas, não é qualquer um que é capaz de entender um desenho. Você disse que queria nos ver e agora estamos aqui.
- Esta é uma foto do general de Maverich se divertindo com a filha de um dos chefes do tráfico de Maverich. Esta outra foto é da mesma garota encontrada morta doze dias depois, ou seja hoje de manhã, no final da madrugada.
- Quem encontrou o corpo?
- Um mendigo perto do esgoto.
- Por que não nos contou mais cedo?
- Eu queria ter mais do que isto quando ligasse. Veja este arquivo, por exemplo. Se quiser pode ler mais tarde, mas posso lhe dizer que encontrará informações ligando o general a alguns assassinatos, uns três ou quatro, agora não me lembro bem. Em nenhum dos casos, porém, foi estabelecido inquérito. Aqui, tenho uma cópia pra você também, subtenente.
- Eu nunca esqueci que você me ama.
- Não brinque com a sorte, Kajo
- Não me chame de Kajo! Chame-me de subtenente Kajo.
Helena disse:
- O subtenente Kajo vai chorar se a gente não fizer o que ele quer...
- Pode parar! – respondeu o subtenente Kajo – Eu sou um cara durão!
- Todo mundo sabe, subtenente. Não precisa ficar gritando. Então é isto. Obrigado, Helena. Sabemos o que fazer.
- Não esqueçam que nunca falamos sobre isto.
- Pode ter certeza! – respondeu o subtenente Kajo.  
Fecharam o trabalho por aquela noite.
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Sab Jun 17, 2017 6:21 pm

A HISTÒRIA DE ARINA

Uma grande operação logística foi articulada em alguns dias para receber na penitenciária, da melhor maneira possível, o ser alienígena, outrora, uma simples estudante do hospital.
No primeiro dia, porém, Arina chegou em um comboio fortemente armado, composto por cinco carros blindados do exército. Tudo foi filmado, mas ninguém viu Arina.
Em segredo, ela estava sendo movida para uma estação de pesquisas científicas do governo, sob a coordenação da Universidade de Maverich.
O complexo penitenciário feminino não estava pronto para receber a monstruosidade alienígena. Enquanto Arina permanecia sedada e inconsciente ela parecia quase humana, mas a sua pele estava adquirindo, aos poucos, uma aparência tétrica que lutava para alcançar e ultrapassar os limites da palidez absoluta. O limiar da aparência dos que já estão mortos, e cuja centelha de vida foi completamente abduzida pela integração simbiótica das sensações extraplanares.
Após ser colocada ali, foi permanentemente vigiada por um grupo de cinco policiais armados, enquanto as atividades da universidade sofriam apenas uma leve alteração, levando os cientistas a dedicarem algum tempo à solução das questões desta natureza.
As grandes montanhas do litoral de Maverich podiam ser avistadas da Universidade. Erguiam-se majestosamente, como imperadores, habituados com a desolação dos escravos sob seus pés.
Os muros da Universidade eram vigiados. Em seu espaço territorial, a vida humana se desenrolava com a paciência dos tempos atuais, com o frenesi das voltas incontáveis do vento violento, e da destruição emanada pelo seu poder incontrolável. Uma natureza escondida sob o signo de si mesma se expõe aos seres vivos, e pede para ser decifrada.  
Em outra parte da universidade dois professores estavam conversando de manhã.
- Oi, Raxel, como você está? – perguntou Raoul.
- Eu estou bem. Chegou cedo hoje, heim?
- Você também.
- Eu sempre chego nesse horário.
- Eu sei, por isto tentei chegar mais cedo hoje pra te perguntar se você tem a tarde livre hoje, já que a gente não tem muito tempo pra conversar aqui.
- Tudo bem, então a gente se vê a tarde.
Eles dois se afastaram, mas receberam uma mensagem em seus celulares do reitor da universidade.
Ao encontrarem o reitor em seu escritório central havia mais oito profissionais. O reitor informou:
- Muito bem, obrigado por responderem com prontidão o meu chamado. Temos um problema interessante em nossas mãos. Nos foi confiada uma tarefa que eu acredito capaz de despertar o interesse científico-tecnológico de qualquer acadêmico. Dentro de dois ou três dias estará pronto um setor do Departamento de Ciências Biológicas que vai atuar no Complexo Penitenciário Feminino de Rio dos Minérios... entretanto, vocês só terão acesso a mais informações quando este contrato estiver devidamente assinado, sob estritamente estes termos, sem a menor possibilidade de acrescentar, retirar ou alterar de qualquer maneira o conteúdo deste documento. Vocês tem até amanhã para dizer se estão dentro ou se estão fora da iniciativa e da inauguração do novo Departamento.
- Espera aí, eu não preciso assinar nada. Que compensação eu vou ter? – inquiriu Naeiro.
- Como está descrito no contrato, vocês terão os salários dobrados.
Raxel  perguntou:
- E se não quisermos trabalhar em um presídio?
- Basta dizer não. Desse modo não ficará sabendo de mais nada, mas se o poder esteve durante tanto tempo nas mãos daqueles que têm saber, então ambos têm uma relação íntima entre si.
- O que isso quer dizer?
O reitor respondeu:
- Alguém tem uma pergunta melhor que esta? Não?  

                                        ()()()
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Dom Out 01, 2017 9:38 pm

Após as aulas, Raxel e Naeiro almoçaram juntos, ignorando o convite de Raoul.
Há algum tempo tiveram um caso, mas não deu muito certo. Agora são apenas bons amigos.
- Eu não sei mais o que eu tenho que fazer pra ter você de volta.
- Esquece isso. Não confunda as coisas. Nós já tentamos e não deu certo antes. Agora não ia dar de novo.
- Eu sei – disse ele --, mas é que... deixa pra lá... você tá certa... eu tenho que ir.
- Não... espera...
Foi o fim do almoço e eles nem falaram sobre trabalho.
Após o fim das aulas noturnas eles dois se evitaram. Cada um tomou um rumo. O professor decidiu tomar um drinque em casa. Bebeu até ficar inconsciente.
Acordou com a cabeça doendo. Tinha amanhecido antes que ele percebesse, e não acordou a tempo de ir ao trabalho.
Naeiro se levantou e escovou os dentes. Depois tomou um banho. Então telefonou para o Departamento de Ciências Biológicas. E assim prosseguiu sua rotina estressante.
No final daquela noite ele procurou o reitor da universidade. Naeiro disse:
- Me perdoe, reitor, eu cheguei atrasado e não pude assinar a papelada, espero que ainda tenha uma chance.
- Sim, está bem, eu vou deixar você assinar, pois o conheço de longa data, mas... – respondeu o reitor, pegando os papéis necessários em uma gaveta – acho que antigamente você não estava tão relaxado.
- Me desculpa, eu não sei o que é que tá acontecendo, eu nunca tinha acontecido isto comigo.
- Eu sei... eu sei... acho que você devia resolver, sabe, os seus assuntos pessoais... por que não procura terapia?
- Não creio nisso... você está falando de terapia pra mim... você não sabe o que eu penso sobre terapia... eu acho que é uma perda de tempo. – respondeu Naeiro, assinando os papéis.
- Pois é. Apesar disso, fiz uma pequena alteração do seu contrato em relação aos contratos dos outros, uma vez que você chegou atrasado... se quiser fazer parte da equipe, então terá que fazer terapia. Não pode continuar chegando atrasado inconsequentemente. É isto, ou você não precisa nem voltar amanhã. Eu acerto seus direitos trabalhistas e estará desligado da organização.
- Eu devia rasgar esse papel, e a sua cara também! Mas eu acho que vô tentar a terapia.
No dia seguinte, logo de manhã, Arina foi transformada em objeto de estudos. Nada foi descoberto. Ela era como qualquer pessoa. Seu organismo parecia exatamente igual ao das pessoas normais. Faltava pouco para o almoço e os cientistas debatiam entre si quais seriam as implicações éticas de suas escolhas. Cinco policiais responsáveis pela segurança dos colaboradores da universidade permaneciam em silêncio, observando tudo, prontos para entrar em ação em caso de algo sair errado.
- A gente não pode simplesmente deixar um ser humano de lado assim, e transformá-lo n’uma maldita cobaia científica... – diziam alguns membros da equipe.
- Esqueça isto... – diziam outros, cada um a seu modo – nós não podemos ficar jogando com palavras o tempo todo. Os conceitos não servem de nada se não podem ser colocados na prática!
- Como pode dizer isto? – perguntou Raxel, aumentando o volume da televisão - Veja o quê estão dizendo no noticiário:
“... uma estudante de medicina foi presa em flagrante por assassinato. Ela foi considerada a única responsável por uma chacina que ocorreu no centro de Maverich há poucos dias. Ela está em um presídio feminino de segurança máxima, nas imediações da grande Maverich. Nem entrevistas nem filmagens são permitidas.”
Apesar disso, Arina ainda não tinha sido transferida para nenhum presídio. Em vez disso, ela continuava no Departamento de Ciências da Universidade.
Raxel disse:
- Acho que devíamos liberar a garota do sedativo um pouco. Poderíamos conversar com ela.
- Esta não é uma boa ideia. – disse Naeiro – Ela foi mesmo a responsável pela chacina no hospital. Além disso, já sabemos que ela é uma alienígena, então por que estão tentando pensar sobre ética humana considerando uma coisa que não é, de modo algum, humano?
Raxel respondeu:
- O que está dizendo? Não me venha com esta, como pode acreditar no que estão dizendo na televisão? Nós estamos na Universidade, no Departamento de Ciências Biológicas, mas estão dizendo que essa menina está no presídio. Além disso, como pode acreditar que ela é mesmo uma alienígena?
- Você viu as fotos do hospital. Como pode acreditar que aquilo é obra de um ser humano?
- Sua mente é retrógrada, Naeiro! – respondeu Raxel.
O reitor Armand Legranjéé interveio na situação:
- Muito bem, é o suficiente por enquanto. Mais tarde, continuaremos, mas antes que possam sair para almoçar, preciso que me escutem por mais um instante. Não esqueçam que em breve Arina será mesmo movida para o presídio. Ficará aqui apenas enquanto fazem pequenas modificações na estrutura do presídio, aumentando ainda mais o fator segurança. Até lá o melhor que temos a fazer é mantê-la sob sedativo, e realizar alguns exames de rotina. Estamos lidando com uma pessoa perigosa.  Mesmo assim, tudo isto está sendo feito para o seu bem.
O grupo foi dispensado e partiram para o almoço.  Suas vidas particulares não tinham muito mais espaço umas para as outras que o espaço propiciado pelo ambiente de trabalho. Desta maneira o dia se estendeu como um tapete vermelho, e recebeu a passagem do tempo em sincronia com o compasso de todo um universo indescritível.
Quando a noite chegou, a equipe voltou a se reunir. Entretanto, Naeiro faltou ao trabalho. Bebera tanto durante a tarde que quando acordou já era de madrugada e tinham roubado sua carteira com todo o seu dinheiro. A triste melancolia se abateu sobre ele. Incapaz de se defender das lágrimas, elas atingiram o seu coração, e a angústia que sentia se decodificou perante os espasmos de seu pranto. Devaneio onírico da melancolia trágica. Perante os olhos de si mesmo, ele tornara-se uma vítima.
Quando a face pálida do que um dia fora se apagou em sua mente, ele sucumbiu ao desafio das trevas, e perdeu a esperança.
Levantou assim mesmo, e cambaleou mais de duas horas madrugada adentro, meio acordado e meio dormindo até chegar a sua casa. Ele mal percebeu que toda a eletricidade estava acabada, e uma grande madrugada de baderna começou nos arredores de Maverich.
Carros bateram, pessoas voltando para casa foram emboscadas, agredidas, e algumas, assassinadas ou mutiladas. Na vizinhança em redor da universidade, os moradores não conseguiram dormir direito, aterrorizados com o som grotesco dos urros bestiais da coisa alienígena, e com o brilho indescritível sobrenatural que surgia a intervalos irregulares, iluminando as paredes da universidade.    
Para Naeiro, a vida estava perdida desde que o amor de sua vida o deixara. Raxel era este amor.
Como ele ficou no dia seguinte ao procurar por Raxel infrutiferamente? Em todos os cantos, no caminho até a Universidade ele ansiou por ela, buscando-a como o sentido de sua vida, mas ela escondera-se dele, assim ele pensava.
                                           ()()()
A ironia de um dia-a-dia sarcástico se espalhou por pensamentos sádicos. Era muito pior do que isto. O sangue espalhado pelas páginas foi derramado como um veneno intoxicante.
Os pequenos aspectos das trágicas mortes violentas começaram a fluir da ponta dos meus dedos. A caneta mais uma vez riscou minhas anedotas absurdas.
Era de manhã. O sol radiante trouxe a luz do dia para que finalmente terminasse aquela noite. Naeiro levantou tarde, com a cabeça doendo de novo. Escovou os dentes e tomou um banho. Depois tentou ligar a televisão e ouvir as notícias, mas a energia elétrica ainda não tinha sido restaurada completamente. Poucos bairros privilegiados tinham acesso a ela naquele momento.
Ele desistiu da televisão. Acabou indo para o trabalho sem saber que a universidade estava fechada.
Absolutamente ninguém estava a caminho da Universidade, com exceção de Naeiro, e ainda por cima o trânsito estava horrível. Mesmo assim, ele estava chegando ao departamento para tentar não ser demitido.
Ao chegar encontrou tudo fechado, mas imaginou que seu departamento não teria folga. Mesmo sem encontrar ninguém, ele se aprofundou mais no interior silencioso do útero do saber. Finalmente, na frente da porta de entrada para o laboratório, ele encontrou uma equipe de trabalhadores.  
- Quem são vocês? - gritou Naeiro – Vocês não são da equipe da Universidade, o que está acontecendo? Eu exijo uma explicação!
- Somos funcionários novos... e quem é você? – respondeu um dos homens responsáveis pelo estabelecimento da investigação.
- Eu sou Naeiro, e faço parte deste departamento. Estou atrasado e vocês estão me impedindo de entrar.
- Sei, neste caso... devo te revelar o quê, de fato, aconteceu aqui? já que pode estar envolvido? Nós somos policiais disfarçados. Responda-me: por que todos foram assassinados e você foi o único poupado?
- O quê? Mas quem morreu?
- Estou apenas fazendo o meu trabalho. Acontece que por acaso trabalho realizando as perguntas, e não respondendo. Mesmo assim eu vou te explicar o que aconteceu depois que você responder as minhas perguntas.
- Eu fiquei bêbado, mas não lembro direito do que aconteceu.
- Sei. Tome, beba um pouco de água. Ouça, doutor, tudo o que sabe é informação confidencial. Você não deve espalhar isto para mídia de forma alguma. Temos que abafar o caso, está entendido?
- Sim, já estava assim no contrato que eu assinei antes, mas espere: por que eu devo acreditar em você?
- Você até que tem sorte. Imagine só. Ficou enchendo a cara e escapou de um banho de sangue. Agora entre aqui. Eu quero te mostrar uma coisa. Todos da equipe que estavam aqui morreram. Precisamos que reconheça os corpos.
-- Sério? Eu não acredito nisso! Sabe o que é? Eu tenho sido tão idiota e eu acho... eu acho... – Ele ia chorar mais uma vez, mas se conteve.
- Está tudo bem... nós também achamos que...
Eles dois saíram da universidade.
- Mas eu queria ver o laboratório... – disse Naeiro.
O policial disfarçado disse:
- Não me venha com esta, agora aquele laboratório é uma cena de crime. Nós temos que descobrir o que aconteceu.
- Pra onde estamos indo? – perguntou Naeiro.
O policial chamado Gabriel Ricardo tirou uma foto de Naeiro com o celular e mandou como mensagem para o Departamento de Polícia. Pouco depois teve a confirmação da identidade do cientista.
- Você não devia ter feito isto lá na universidade?
- Você com aquela cara de bebê chorão? Iam pensar que eu tinha te sacaneado... olha ali, estamos chegando.
Uma construção, de uma laje só, estava assentada na colina, por trás de uma cerca. Sua cor era cinza. Eles desceram do carro, e entraram no necrotério. Ao olhar para a entrada, Naeiro leu: NECROTÉRIO.
                                               ()()()
Entraram no portal das trevas, e mergulharam para o fundo da narrativa. Seus corações bombearam a densidade das sombras, e sentiram o sabor da obscuridade da linguagem do horror. O mergulho nas sombras do terror se aprofundou na atmosfera da violência sobrenatural.    
O cheiro da morte e do medo adentrou as narinas de Naeiro. Quando finalmente viu o rosto daquela que amorosamente procurou, encontrou-a com a rigidez pétrea dos cadáveres.
Naeiro lamentou com a profundidade de seu ser:
- Eu a conheci. O coração de Raxel, outrora bateu alucinadamente apaixonado pela vida, pela existência do pensamento e da arte. Inebriado definitivamente pela doçura das sensações da matéria. Agora, porém, está parado, e assim permanecerá para sempre...
Os outros também estavam mortos, com exceção de Armand Legrangéé.
O aspecto dos cadáveres era sanguinolento. O tom macabro das células escarlates do sangue contrastava com a palidez medonha dos mortos.
Horror.
Foi assim que Naeiro ficou. Suas mãos tremeram. A obscuridade o invadiu. Ele gritou e se descontrolou. O policial deu um choque nele. Ele se controlou e saiu de onde estava, mas ninguém o seguiu.

(Próximo Post: O Horror sanguinário)
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Dom Out 22, 2017 1:47 pm

O horror sanguinário

Vamos voltar à noite anterior.
Estava quase no fim do horário das aulas. Estas, porém, estavam ocorrendo normalmente na Universidade enquanto, no Departamento de Ciências Biológicas, os especialistas analisavam os tecidos do corpo de Arina. Cinco policiais armados estavam trabalhando para lhes manter em segurança. Seus nomes eram Fontana, que estava no comando, Alípoe e Ruan, que eram homens jovens, entre vinte e cinco e trinta e sete anos de idade; e Paloma e Gioconda, que eram mulheres, a primeira com dezenove e a segunda com trinta anos de idade, ou seja, ainda mais jovens.
Os policiais estavam espalhados pelo laboratório, em pontos estratégicos, onde poderiam ver panoramicamente. Observavam atentos.
Os cientistas, por sua vez, utilizaram um dispositivo eletrônico, com capacidade heurística, para traçar um padrão lógico do comportamento celular. Para isto tinham uma amostra do sangue de Arina. Os resultados, porém, foram insatisfatórios.
- Muito bem... – disse o reitor – De acordo com este mapeamento cromossômico, ela é uma adolescente praticamente normal. Isto significa que ela não é uma alienígena.
Ela também tinha radiografias cerebrais, indicando completa normalidade estrutural e nervosa.
Todos se sentiram desanimados. Pensaram fugazmente em desistir da pesquisa com uma profundidade rara. Uma voz, contudo, ousou rebelar-se contra o que estava implícito no silêncio.  
- Talvez não seja isto. – disse Raxel – Talvez a ação do ser alienígena esteja restrita por causa da medicação... por que não experimentamos diminuir a dose da medicação pela metade, e ver se as amostras do epitélio sofrem alguma modificação ou apresentam um comportamento fora do comum?
Todos concordaram que tinham que fazer alguma coisa. Então decidiram. Reduziram pela metade a dose do sedativo que vinha mantendo o ser alienígena sob controle.
Depois de cinco minutos as atividades acadêmicas já estavam se encerrando. Os alunos estavam indo embora. Apesar disso, no Departamento de Ciências Biológicas, os cientistas retiraram uma amostra do epitélio da cavidade nasal.
- Interessante. – disse o histologista chamado Antunes, usando um microscópio – Se eletrificarmos levemente o tecido epitelial, ele muda sua estrutura. A amostra que retiramos, se pertencesse a uma pessoa normal, deveria ser um epitélio pseudo-estratificado pavimentoso e permanecer assim de qualquer maneira. Esta amostra, no entanto, ao reagir a eletricidade, muda sua estrutura e se torna rapidamente um tecido epitelial estratificado pavimentoso, composto por camadas celulares. Nos seres humanos apenas as camadas celulares mais inferiores são capazes de efetuar mitose. A metaplasia está fora de cogitação uma vez que neste caso é a eletricidade que induz o que parece ser uma reação química celular. Espere, o que é isto?
Antunes, o histologista ficou em silêncio, por um momento. Depois tirou os olhos do microscópio e disse olhando para Arina:
- Acredito que podemos ver uma leve transformação na aparência física da jovem. Vejam aquilo. Aposto que é um conjunto glandular exócrino.
Então ele se aproximou do alienígena. O lado direito deste corpo sofrera modificações, e estava assumindo uma aparência alienígena. Apesar disso, os olhos de Arina permaneciam ainda fechados, e ela não esboçava movimentos.
O reitor disse:
- Muito bem, pessoal, eu vou querer relatórios semanais sobre este caso. Temos mais meia hora de trabalho por hoje e então poderemos descansar.
O histologista disse:
- Talvez ainda dê tempo de descobrir que tipo de secreção é expelida pelo sistema exócrino.
Assim ele estimulou a glândula alienígena e um tipo de fumaça ácida flutuou acima do corpo de Arina, se movimentando como uma serpente viva. O ácido alienígena invadiu suas narinas derretedo-as imediatamente.
- Aaaaaah aaaaaaahhhh aaaaaaaahh aaaaaaaaaaaaaaah  
Os gritos foram inevitáveis. A dor foi explícita, mas seu significado foi nebuloso.
Os policiais entraram em ação. Todos tentaram cuidar do histologista, mas ele desmaiou brevemente.
- Eu vou chamar uma ambulância – disse Raxel.
O reitor não queria permitir. Ele disse:
- Não. Vamos fazer de outro jeito. Você vai levá-lo ao médico dirigindo, mas não vão de modo algum dizer a verdade. Não me importa o que vão inventar, mas não digam absolutamente nada a ninguém sobre o que está acontecendo aqui.
- Como pode dizer isto?
Abateu-se novamente o silêncio da conivência. O histologista, Antunes, se recuperou. Ele disse:
- Eu estou bem. Meu nariz vai se recuperar. Agora, será que alguém pode me levar até algum lugar aonde possa me lavar e depois tomar um pouco de ar fresco?
Entretanto seu nariz estava parcialmente destruído. Ele deveria pelo menos estar em choque.
- Está bem. – disse o reitor – Raxel, vá com ele, por favor.
Assim eles desapareceram pelos corredores da universidade, até que chegaram ao banheiro masculino. Um dos policiais, Ruan, foi com eles. Estava escuro após o fim das aulas. Muitas luzes estavam desligadas.
- Eu estou bem. Agora deixe-me ir ao toilet.
- Está bem, pode ir. – disse Raxel, especialista em anatomia. Depois disso, ela acendeu um cigarro, e esperou por Antunes, o histologista.
O cigarro acabou e ela acendeu outro.
O policial Ruan se aproximou um pouco dela e disse:
- Vou ver por que a demora. Ele pode estar passando mal. Você fica bem aqui.
Ela respondeu irritada:
- Ai, se você quer ir mijar, então vai logo!
O policial entrou. “Que mal-criada”, pensou ele.
O histologista não saiu até que o segundo cigarro também acabou. O policial também estava demorando. Raxel sentiu o ímpeto de acender o terceiro cigarro, o que fez prontamente. Ela invadiu o banheiro masculino, mas não havia ninguém ali. As luzes do banheiro estavam apagadas. Seus olhos tentaram se acostumar com a escuridão enquanto procurava pelo interruptor. Ela tragou a fumaça de seu cigarro, mas de repente seu pescoço foi enlaçado por um cinturão e ela começou a sufocar.
- Você não acreditou mesmo que este idiota ia se recuperar disso, não é, sua vadia burra! Agora eu vô te mostrar quem é o mais forte!
A expressão de horror estampou-se na face de Raxel. Ela soltou o cigarro no chão, esquecendo-o completamente enquanto se desesperava sem ar. Aos poucos, o tempo se desenrolou na morte. O espectro coberto pelo manto negro do luto trazia nos olhos o vazio.
Mais perto da morte estava Raxel. Mais perto da inércia absoluta estava ela. Mais perto estava ela da ausência despótica de pensamento e existência. O assassino riu. Soltou levemente o laço. Raxel viu a silhueta do policial caído no chão. Ruan estava morto. Sua aparência era horrenda. Seu rosto estava totalmente destruído, massacrado violentamente, tão sujo de sangue que Raxel só reconheceu seu uniforme policial.
- A sobrevivência é uma ilusão! Estou cansado de você! – gritou o algoz impiedoso.
Inevitavelmente o fôlego da jovem estava acabando. Satisfeito com seus jogos violentos o matador a executou. Raxel, a vítima, sufocava-se ajoelhada perante seu carrasco. Com a mão esquerda, este segurou firmemente o cinturão em volta de seu pescoço. Com a mão direita, ele pegou uma caneta de seu jaleco. Este será o instrumento do assassino alienígena. Com ocorpo de Antunes, ele perfurou a orelha direita de Raxel. Dor aguda brutal. Repetidamente, os golpes se sucederam buscando sempre o mesmo ponto até destruir o mais completamente possível as estruturas auditivas. Até perfurar várias vezes o lobo temporal direito da anatomista. Até que seu olho direito encheu-se de sangue. Seus gemidos grotescos de dor foram sufocados pelo cinturão em seu pescoço. Alucinatória ruptura traumática. O esvair de sua sanidade foi lento, mas quando feneceu foi definitivo.
Enquanto isto, até mesmo as áreas mais movimentadas da universidade estavam se esvaziando e os professores, com exceção do Departamento de Ciências Biológicas, estavam indo embora. Os portões da Universidade estavam fechando e a iluminação já estava sendo reduzida.
O assassino, por sua vez, saiu do banheiro. Atrás de si, deixou muito sangue espalhado pelas paredes e pelo chão. Rastro da destruição. Reunindo e concentrando seus poderes alienígenas demoníacos por dez minutos, criou um campo de interferência nos campos eletromagnéticos, provocando uma queda na eletricidade de toda a universidade. Todos já tinham ido embora, com exceção dos membros da pesquisa amaldiçoada pela corrupção da criatura oculta na Vacinali-n.
Pouco depois o histologista ouviu o som de passos que o atraíram de volta ao banheiro. Furtivamente entrou e preparou-se para surpreender sua próxima vítima.
                                                                                                                                                                                        ()()()
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Qua Dez 27, 2017 4:28 pm

Aqueles que ficaram no laboratório estavam conversando.
Raoul estava falando com Débora. Ele perguntou a ela:
- O que você acha dos direitos humanos no estudo da biologia?
- Você quer a minha opinião sincera ou...
- Ou... ...
- ...
- ... não... brincadeira... eu quero a sua opinião sincera...
Ela respondeu:
- Não sei se poderia opinar sinceramente sobre este assunto, já que têm policiais escutando nossa conversa.
- Não se preocupe, nós não somos tagarelas. – disse Fontana, o policial que chefiava os outros quatro, tendo escutado o que para ele é uma “conversa fiada” – Mesmo porque eu não dou a mínima para os direitos humanos. Espero que não pensem que estou falando pela instituição, mas pelo que vejo nas ruas, os direitos humanos são só para ricos e pessoas que têm diploma. Se bem queee...
- É exatamente nisso que eu estava pensando. – respondeu a cientista – Poucas pessoas tendem a pensar na história do Frankenstein, por exemplo, como algo sobre o poder destrutivo da ciência e do pensamento científico. Então, eu acho que estou apenas não sendo hipócrita se admitir que o desenvolvimento tecnológico sempre esteve, e ainda está, atrelado a horrores violentos e cruéis. E para você, Raoul, o que significam os direitos humanos?
- Eu não sei bem ao certo. Por um lado é necessário acreditar em alguma coisa. Eu estudei pouca filosofia na minha vida, mas acho que a vida sem nenhum tipo de fé ou crença é desprovida de sentido. Por outro lado, o humanismo me parece uma alternativa sólida e mais interessante do que a fé cega medieval.  
- Que é isso... – riu o policial – você vai longe hein.
Raoul respondeu:
- Você tá falando sério, cara? Não, porque ela falou até de Frankenstein, que eu aposto que você não leu, só deve ter no máximo visto estes filme escroto de refilmage’ absurda e ficou quieto...
O policial pareceu ficar irritado. Ele estava pensando: “por que eu tenho que estar aqui agora? Ordens, ah, é por isto então tem que aturar estes bacanas”.
O silêncio caiu por um momento no laboratório, a não ser pelos monótonos e quase imperceptíveis sons dos aparelhos eletrônicos. Um “chiadinho” contínuo, uma “pulguinha” atrás da orelha.
Até que o reitor Armand Legrangéé falou:
- Vocês ouviram isto? Mas o que é que aqueles estão fazendo? Por que estão demorando tanto?
- O quê? Ouvir o quê? – respondeu algum dos cientistas.
O policial no comando chamou seu subordinado pelo rádio, mas ninguém respondeu, apenas o som da estática. Pouco depois, subitamente, o rádio desligou.
A eletricidade acabou. Nenhum dos aparelhos funcionava sem energia elétrica.
Não faltou eletricidade por qualquer coisa, mas por um ato intencional da criatura das trevas. Organismo híbrido interdimensional. Polo destrutivo da criação. A vacinali-n.
De repente a escuridão envolveu o laboratório e aliou-se ao silêncio na morbidez do momento, descendo em espiral para o fundo do subconsciente. Todos se alvoroçaram, falando ao mesmo tempo, e tentando ligar os celulares, mas nada funcionava.
O reitor tomou a palavra, dizendo:
- Calma, pessoal, eu sei onde ficam as chaves elétricas. Enquanto eu e mais três cientistas entre vocês vamos até lá, para religar a luz, o restante fica aqui, esperando pelos outros... – três cientistas se reuniram em volta do reitor - assim nós vamos.
- Escuta... depois que você ligar a luz, podemos ir embora? – perguntou Carlos, o fisiologista, um dos três que irá com o reitor para reestabelecer a eletricidade. Os outros dois serão Magda, a embriologista, e Agenor, o ecologista.
- Eu ainda não tinha pensado nisso, mas talvez esteja cedo ainda... – respondeu o reitor – é uma pena perdermos tempo com problemas elétricos. Não achei que ia precisar da manutenção hoje.  
Duas policiais, Gioconda e Paloma, foram com o reitor e os cientistas que o acompanharam. Elas tinham uma lanterna cada uma e foram capazes de guiar o caminho até o gerador elétrico.
Enquanto eles se afastaram do laboratório, o policial no comando chamou novamente pelo rádio. Não houve resposta. Ele disse:
- Tem alguma coisa errada. Vocês ficam aqui. Enquanto isto, eu vou verificar por que a demora. A propósito, seu Zé Ruela, ninguém tá nem aí pra literatura hoje em dia...
Raoul respondeu:
- Tá tudo bem, vejo que começamos com o pé esquerdo. Que tal mudarmos isso? Todo mundo sabe que quando começamos a nos separar em grupos é que começam os assassinatos.
- Mas do que é que você tá falando? Isso aqui não é nenhum filme genérico de terror não! – respondeu a cientista Débora.
- É verdade, é verdade, mas é que... bem... as pessoas morrem no mundo real também...
- Escuta aqui! Pode até ser verdade, mas as únicas ameaças aqui são o espécime alienígena na mesa de operações, uma mera cobaia... e o seu intelecto de segunda categoria. – falou o policial no comando, chamado Fontana, interrompendo Raoul.  
A cientista Débora interferiu na conversa. Ela disse:
- Nesse caso, então, por que você vai nos deixar sozinhos com o monstro, enquanto vai sei lá pr’aonde nesta escuridão?
- Eu tenho uma lanterna. – respondeu o policial chefe – além disso, vocês não estarão sozinhos. Tem um policial com vocês.
Dizendo isto, ele saiu.
Pouco depois, Raoul disse:
- Eu não tô aguentando. Preciso ir ao banheiro.
- Não posso permitir! – disse o policial chamado Alípoe, que ficou no laboratório - Você deve esperar pelo menos até voltar a eletricidade.

                                                ()()()
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Ter Fev 13, 2018 4:13 pm

No escuro foi fácil para Raoul, por mera implicância, desobedecer as ordens, e furtivamente se afastar do laboratório, decidido a ir ao banheiro. Ele pensou que seria fácil encontrar o caminho a despeito da escuridão. Ele não sabia, porém, que estava dando seus últimos passos, e se movimentando pela última vez nesta vida. Não se sabe o que pensava Raoul enquanto caminhava no escuro, mas de repente, ficou óbvio para ele. Pensamento pulsante irracional. Obscura presença bestial legionária. Teve medo, mas mesmo assim, permaneceu em silêncio.
Continuou caminhando e já estava alcançando o banheiro quando ouviu um tiro. BANG. Depois disso, um vulto se destacou movimentando-se nas sombras da noite, saindo do banheiro.
                                           
                                                                                                                                 ()()()

O policial chefe, Fontana, chegou ao banheiro da faculdade. Achou estranho não haver ninguém do lado de fora, e sacou sua arma. Ele entrou no banheiro, mas foi atacado no escuro pela obscura criatura assassina a sua espera. Sua lanterna caiu no chão. Por reflexo o policial conseguiu atirar contra aquele que pretendia tornar-se seu algoz.
Um tiro explodiu violentamente o coração do agressor.
O histologista Antunes sob a Vacinali-N tombou pesadamente no chão, libertando o policial chefe, que recuperou sua lanterna. Porém, ao jogar a luz sobre a face de seu oponente para descobrir a identidade de seu agressor o policial ficou em choque. Dos olhos do histologista, saía o mesmo ácido expelido por Arina no laboratório. Espiral hipnótica. O ácido entrou pelo nariz do homem da lei, derretendo-o.
- Ahhhhhhhh – gemeu de dor o policial.
Depois do nariz o ácido prosseguiu seu caminho derretendo tudo até atingir a glândula pineal. Ao entrar em contato com as estruturas mitocondriais de suas células a reprodução do ácido alienígena se dissolveu por toda a corrente sanguínea, através do sistema endócrino da vítima. Total dominação das emoções. A substância alienígena estimulou a epífise, ou seja, a glândula pineal, e induziu um sono hipnótico à vítima. Sua consciência dividida estava em contato com a corrupção alienígena. Seus pensamentos foram absolutamente assaltados pela obscuridade funesta das intenções e desejos da entidade das dimensões extragalácticas. A simbiose não se estabelecera, mas ao contrário, a submissão ao jugo do desejo por destruição.
Tomado pelo poder inebriante da vacina alienígena, o chefe da polícia se perdeu nos caminhos tortuosos da insanidade e da violência sem sentido. Sob controle da Vacinali-N, ele saiu do banheiro a procura de sua próxima vítima.

                                                                                                                             ()()()

“O que foi isso? de onde veio esse som? Eu quase mijei de medo agora”, pensou Raoul.
Ficou alterado, mas não ouviu mais nada suspeito. Relaxou e ficou mais tranquilo.
Ele entrou no banheiro e urinou. Sentiu-se ainda mais seguro de si mesmo, mas quando estava de saída tropeçou em alguma coisa no escuro e caiu no chão. As luzes se acenderam. Com horror ele viu Raxel e o primeiro policial, além do histologista, caídos no chão. Poças de sangue. Eles estavam mortos. Implacável assassino da Vacinali-N. Seu único desejo é o assassinato e o extermínio.
Raoul saiu correndo do banheiro. Adiante parou para recuperar o fôlego.
Ainda ofegante, sentiu o peso do impacto de um extintor de incêndio golpeando sua nuca. Inchaço instantâneo. Caído no chão desnorteado, tentando focar a atenção em um ponto qualquer do espaço, jazia indefeso Raoul. Sua capacidade de percepção da realidade foi abalada, e ele perdeu o equilíbrio. O policial que chefiava os outros foi a pessoa que desferiu o golpe. Sob o comando sinistro da coisa do outro mundo ele disse, com o semblante transfigurado do predador alienígena assassino:
- Você deve estar se perguntando o que está acontecendo. Deixa eu te explicar. Você vai morrer. Não tente entender o caos! – ao dizer isso, com a perna direita a Vacinali-N monstruosa posicionou Raoul deitado em decúbito dorsal, ou seja, de barriga para cima, ajoelhando-se acima do quadril de Raoul, que conseguiu recuperar o equilíbrio, mas já estava imobilizado, com sangue escorrendo de seu nariz.
As luzes começaram a piscar. Os olhos brancos do policial tomado pela Vacinali-N se uniram ao seu sorriso macabro para assustar, para triturar a consciência, para apedrejar até a morte a experiência de sua vítima. Raoul implorou:
- Não, espere!
O vento começou a rodar, e um zumbido binário passou a manifestar o poder da monstruosidade alienígena. A distorsão do campo magnético estalou com clarões similares aos trovões. A vacinali-n revelava cada vez mais sobre sua natureza obscura e maldita. A substância letal incontrolável pura era bestial e não tinha, de modo algum, escrúpulos ou moralidade. Esta monstruosidade autodestrutiva esbravejou com sua voz grotesca gutural sombria do abismo fechado:
- Você me libertou e agora pagará o preço pela sua insolência!  - ambos os braços da Vacinali-N levantaram o extintor de incêndio acima da cabeça. Com ambas as mãos o golpe foi desferido pela segunda vez. O choque do impacto pressionou a parte de trás da cabeça de Raoul contra o chão. O osso rachou levemente. Sangue. Dor intensa desnorteante. Ele quase desmaiou. Seu nariz foi completamente esmagado, e ele não estava respirando direito.
- Hahahahahahahahahahahaha – gargalhou a Vacinali- N, abindo os braços em regozijo, abrindo os braços em prazer, abrindo os braços em desafio.
O sangue se espalhou pelo chão. A expressão de Raoul era de semiconsciência e confusão. Ele recuperou um pouco do fôlego. Não havia piedade, porém, no coração do alienígena devorador, subversão da personalidade. Não, mas havia ódio, poder e violência.
Pela terceira vez o alienígena brutal desferiu o golpe, e esfacelou definitivamente a consciência de Raoul. Esta se esvaiu com a sutileza das raposas no exercício de sua esperteza ludibriante.
O corpo massacrado de Raoul permaneceu inerte, mas a Vacinali-N, corroída pelo rancor, continuou golpeando incessantemente sua cabeça. Uma rachadura vertical frontal se uniu à primeira rachadura, em sua nuca. O seu crânio partiu ao meio, e o sangue se espalhou abundantemente. Os ataques prosseguiram. Destruição do córtex cerebral. Do cérebro de Raoul, restaram apenas pedaços do sistema límbico. Brutal assassinato. Matador sombrio. Escuridão crescente na loucura da vacina alienígena. Os miolos de seu cérebro se espalharam pelo chão, manchados do sangue humano, vermelho, berrante e grotesco.
Os espasmos do corpo cessaram logo. A matéria ficou inerte. O movimento silenciou. Nada. Acabou. Violência vulcânica em erupção.
O assassino prosseguiu em seu caminho sombrio. Desapareceu na escuridão do pensamento humano, mas está pronto para emergir do subconsciente; está pronto para explodir violentamente; está pronto para jorrar o magma da agressão.
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Qua Maio 02, 2018 8:42 pm

A fila dos mortos anda rápido

- Senhor, o que aconteceu, senhor? Qual é a situação? – insistia mais uma vez pelo rádio o soldado. Foi a quarta vez que ele tentou chamar seu superior pelo rádio desde que a eletricidade voltou. Novamente não houve resposta.
O soldado desligou o rádio. Além dele, também estavam ali, todos em silêncio, Débora, teórica especialista do evolucionismo; Marlon, um estudioso dos fungos, e Molares, o geneticista. Ninguém queria conversar. Estavam tensos e queriam ir embora de uma vez. Não podiam, porém, fazê-lo sem permissão e o reitor ainda não voltou.
Bruscamente o policial Fontana irrompeu no meio do laboratório, sobressaltando os que ali estavam.
- Senhor, o que aconteceu? Que sangue é esse? Você viu o que são aqueles barulhos que ouvimos? – perguntou o soldado. Seu superior respondeu:
- Sim, eu sei! – dizendo isto ele levantou a arma e disparou um tiro certeiro no cérebro do soldado, espalhando sangue e material nervoso pelos aparelhos tecnológicos e pelo chão do laboratório.
Antes mesmo que o cadáver caísse no chão, a vacinali-n disparou mais duas vezes, assassinando Molares e Marlon. Débora tentou fugir, mas as formas tentaculares já estavam se apossando do corpo de seu hospedeiro. Os tentáculos bizarros da criatura das trevas puxaram-na pelos pés. Ela puxou um bisturi de um dos bolsos do jaleco, e cortou a criatura alien. O berro inumano bestial da coisa alienígena macabra se espalhou pelo ar, corrompendo os tímpanos humanos pela expressão da sua dor infernal.
A teórica evolucionista correu para longe dali o mais rápido que pôde. Atrás dela, porém, estava a criatura. Não mais se escondia sob o disfarce humano. Nefasta, mostrava-se em sua manifestação e hedionda, revelava-se em suas ações grotescas. Voz gutural alienígena, que ascende dos abismos oceânicos e reverbera pelas paredes da universidade, reverbera para além, para os bairros ao redor, reverbera para as dimensões sobrepostas a nossa realidade, reverbera até o coração dos leitores, e guia-os pelo caminho destas páginas. Guia-os pelo caminho do medo.
Ouça a respiração ofegante e desesperada da evolucionista. Seu coração estava acelerado, e sua corrente sanguínea, infestada de adrenalina e outros hormônios estressores. Débora continuou correndo, mas a criatura gostava da perseguição e permitiu sua sobrevivência por alguns instantes. Fatal, porém, era aquele momento. Manifestação do império da morte. Derramamento de sangue e dor.
Os tentáculos a capturaram uma vez mais. Ela foi arrastada contra sua vontade. O desespero que nesta hora seus olhos refletiram é indescritível. O poder de seu volume é descomunal e a tristeza pela sua morte prematura, extrema. Do ventre do outrora policial Fontana abriu-se a boca alienígena, como um grande e profundo corte vertical, que se estende desde a boca do estômago até o baixo ventre. O som grotesco que saía daquela boca de dentes longos e afiados era manipulado pela língua da coisa monstruosa.
- Você será meu sacrifício! – dizendo isto, a criatura enrolou a língua monstruosa no pescoço de Débora, lambendo-a como se lambesse o medo exalado por seus poros. Ela foi arrastada até a boca diabólica. Com as próprias mãos a coisa extraplanar rasgou o abdômen de Débora. O sangue se espalhou. A cientista foi destruída, obliterada, massacrada. Suas vísceras foram arrancadas e devoradas pelo demônio da vacina alienígena. Dela sobraram apenas os restos do corpo, jogado no chão, imóvel, olhando para o céu como se não acreditasse estar morta.  
Depois disso a Vacinali-n retomou a forma do policial, retraindo os tentáculos .

Os próximos da lista

 Agenor, Magda e Carlos foram com o reitor e dois policiais para religar a eletricidade. O silêncio ecoava pelas mentes assustadas destas pessoas. A racionalidade humana sempre enfraquece um pouco a sua prepotência ao se deparar com o vazio estabelecido pela escuridão. A luz permite ao ser humano conhecer. O escuro nos lembra do que não podemos conhecer. A luz das lanternas de Gioconda e Paloma era sua única salvação perante a ignorância e o medo, ou seja, a escuridão, a ausência, a falta, de luz ou de sentido. Fantasia terrível da indefinição. Pesado martírio é o fardo que carrega a fragilidade da razão humana.
Ninguém disse nada por algum tempo. Em silêncio eles caminharam perto uns dos outros, com medo de ficar pra trás. No entanto, uma coisa dessas, eles não poderiam admitir. A ciência, sim, a ciência e seu modo racional de pensar, explicaria todos os enigmas misteriosos que caem sobre a existência humana como um manto obscuro de insanidade. Emblemas sombrios e funestos das trevas, da violência e da barbárie. A civilização esconde-se de si mesma quando a sobrevivência é ameaçada por forças cósmicas além da compreensão racional.
Por debaixo de seus pés passaram os corredores conforme eles se distanciaram do laboratório. Sentiam como se a universidade fosse uma selva, e um grande predador estivesse solto “por aí”. Chegaram ao local em que estava o gerador e o religaram. A luz apareceu e, com ela, toda a fascinação exuberante da imagem, da impressão, da produção imediata da experiência visual. Instantaneamente seus pensamentos se voltaram a tentativas vãs de explicar racionalmente a completa “falta de sentido” de seus sentimentos e emoções. Quando a eletricidade voltou e todos puderam olhar para os rostos uns dos outros, riram nervosamente com os lábios, enquanto seus olhos refletiam a experiência singular do inexplicável, do misterioso e do enigmático.
- Droga, - disse o reitor – estamos prontos para voltar agora. Pena que acho que talvez não dê mais tempo de fazer muita coisa.
- É mesmo – disse Magda. Ela estava com muita vontade de ir embora para casa. Estava começando a se sentir arrependida por ter aceitado tão funesto e macabro trabalho. “uma criatura alienígena...”, pensava ela, “o que significa isto?”.  Imersos em seus pensamentos e memórias estavam todos eles. “Não há motivo para sentir medo”, pensavam. Embora o subconsciente estivesse explodindo mensagens corporais sua “fala” incompreensível, emblemática, codificada, não encontrava compreensão no modo de raciocinar civilizado dos cientistas urbanos. Enquanto seus corpos sentiam o trabalho do sistema límbico, sua humanidade rejeitava seus apelos insistentes para fugir ou lutar. Assim é a objetividade inerente ao pensamento habituado a refutar o inexplicável negando a sua realidade. A sobrevivência do pensamento folclórico rejeita o absolutismo da cultura lógica racional despótica.
Gioconda, porém, lembrava-se do dia em que decidiu ser policial.
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Qua Ago 29, 2018 1:12 pm

Conhecendo a vítima do carrasco (morrer é humano)

Gioconda nasceu em 1986, em Vasalord, na Bahia. Era filha de Maurício Bingú e de Letícia Bingú. Maurício era filho de Dora Bingú e Plínio Bingú; e Letícia era filha de Isadora Plumar e Consuel Plumar.
Desde quando se lembra Gioconda tem passado por dificuldades. Seu avô abusou dela em algumas ocasiões quando ela ainda era criança. Seu pai fazia o mesmo. Sua mãe, por sua vez, parecia se deleitar em ver o esposo com a própria filha.
Após essas ocasiões, quando tinha doze anos seu pai viu-se envolvido em dívidas por causa de seu hábito de beber e jogar. Nessa noite ele chegou bêbado na casa em que morava, com lágrimas nos olhos. Sua mulher perguntou várias vezes, repetidamente, pela causa de tão horrenda manifestação de dor e culpa. Incapaz de responder estava Maurício. Seus soluços ficavam presos em sua garganta, como pedras brutas sob o solo, como um coágulo sanguíneo prestes a estourar uma veia.
Quinze minutos quase ininterruptos. Todos os filhos da família se indagavam espantados pelo sentido do “circo”. “Quem morreu?”, pensavam. E logo descobririam, embora a morte seja apenas a ausência neste caso.
O ronco absolutista de um motor despontou na atmosfera. O rosnado “bruxo” da máquina avançada ficou cada vez mais potente, invadindo os ouvidos de todos com o poder extremo de suas ondas sonoras. Até que o carro parou na frente da humilde residência da família em questão. O motor desligou, os cachorros latiram, e um homem com uma bengala de luxo, e cartola, adentrou pela porta da frente, chegando à sala onde todos estavam.
- Ora, mas que cena é esta? – disse ele. – Você ainda não contou pra eles, né? Olha só a cara deles... aposto que ficou apenas se lastimando, mas agora acabou seu tempo.
Não tinha vindo sozinho o dono da cartola, mas acompanhado estava, por dois homens de estatura mais constituída do que a média habitual do cidadão comum. Estes dois se agigantavam dentro da pequenina sala, onde já estavam tantas outras pessoas. Seus olhos eram frios. Demonstravam estarem a um fio da agressão, da violência, da pancadaria, da luta, da batalha, do trabalho do dia-a-dia, da tortura, da ameaça, do silêncio.
Finalmente o pai de Gioconda falou firmemente:
- Você tem que ir com ele.

De volta ao ataque do alien assassino

Fontana, o policial no comando, apareceu de repente. Suas vestes estavam rasgadas. Sinistra era a expressão de seu rosto. O brilho frouxo da insanidade em seus olhos era possível vislumbrar. Ele gaguejou a princípio, mas depois recompôs sua fala. Inalterados, porém, permaneceram seu misterioso modo ritmado de falar, e a aparência tétrica de seu semblante abalado.
- Temos todos que fugir. Houve um massacre! Eu vou explicar! Aquele cara que se machucou, tá entendendo? Aquele cara que foi no banheiro... ele matou todo mundo! – esbravejou o policial Fontana, chefe desta operação nomeada posteriormente como Operação Fundo Falso.
O reitor tomou para si a vez de falar:
- Do que você está falando? Não é possível que tenha acontecido isto. Agora há pouco estávamos todos bem, no laboratório! Além disso, o bom e velho covarde do Antunes (o histologista?) nunca faria mal a alguém.
- Se não estão acreditando em mim venham comigo até o laboratório.
“O que há de errado nesta situação?”, pensava Armand Legrangéé, enquanto caminhava apressadamente para o laboratório junto com os outros.
Pouco adiante havia uma escada larga o suficiente para que quatro pessoas pudessem subir, ou descer, lado a lado. Era uma escada comum, constituída por degraus organizados em um jogo duplo, ou seja, dezenas de degraus ligados por uma pequena área plana. Era uma escada, sim, do tipo comum, absolutamente comum e cotidiana, do tipo que todos os dias vemos. Ou não. Tanto que em muitos momentos, principalmente quando se está pisando na escada, usando-a para subir ou descer, usando-a para ir ou vir, ela fica invisível. Cotidiana como qualquer drama, qualquer comédia, qualquer ato humano, ou qualquer trágico poema de vergonha ou ódio, rancor ou paixão.  
Terror. A elevação constituída por degraus permanecia muda, silenciosa, e também estática, imóvel. Absurda imaginação da metáfora alucinante. Rebelaram-se os degraus da escada. Vingaram-se daqueles que tantas vezes os pisaram.
O primeiro a subir foi Fontana, alcançado em seguida pelo reitor. Atrás deste último vinham Carlos, Magda e Agenor. Nesta ordem estavam de cima para baixo na escada. Fontana empurrou Carlos, que estava na frente, e este derrubou Magda e Agenor da calçada. Eles caíram desacordados, mas um deles morreu na hora. Estalo feroz. A sonoridade cruel dos nervos se rompendo junto com os ossos da coluna se quebrando onde se ligam ao crânio reverberou no ar. O rosto da vítima ficou retorcido para o lado, com os olhos abertos, a boca, aberta também, com a língua para fora, pendendo por um pequeno pedaço, ensanguentada, após ser cortada pelos dentes do próprio dono na queda. Não houve, porém, dor. A ação do carrasco, letal anjo negro da morte assassina, foi tão rápida e brutal, que a vida de sua vítima, Carlos, um especialista na área da fisiologia dos organismos biológicos, já tinha acabado quando mordeu a língua.
Gioconda e Paloma estavam no “pé” da escada manchada de sangue. Surpresas elas gritaram:
- O que é isto? Ficou louco?!
A barriga de Fontana se abriu em um longo corte vertical, revelando inúmeros dentes afiados, grandes e pontiagudos, ideais para triturar e perfurar a carne humana, uma grande língua, e tentáculos nefastos abomináveis da criatura bizarra. Apontando para Legrangée, o policial Fontana, tomado pela criatura alienígena, disse:
- Venha comigo sem reagir, ahahahaha!
Paloma atirou três vezes. Gioconda deu dois tiros. Boom. A sonoridade violenta dos estampidos reverberou pelas paredes do local. Apesar disso, Fontana não foi atingido, e fugiu levando o reitor como refém.
Gioconda disse:
- Cuida destas pessoas que eu vô atrás do malucão!
- Espera! Mas o que era aquilo? – respondeu Paloma.
O rosto de Gioconda ficou grave, e ela disse dramaticamente:
- Parece o capeta!
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Re: Vacinali-N

Mensagem por Sub Versão em Dom Nov 18, 2018 1:42 pm

Preciosidades de uma vida mnemônica

Há três meses Gioconda estava trabalhando para o Xhefe, era assim que ele gostava de ser chamado. O Xhefe era legal, ela achava, pelo menos até então. Ele era, para ela, mais legal, e melhor, que seu pai.
Aos poucos ela se apaixonou e deixou-se seduzir por ele uma noite. Foi sua primeira noite de amor verdadeiro. Talvez a única. Depois disso o Xhefe mudou com relação a ela, passando a chamá-la de vadia ou vagabunda burra com certa frequência. Alguns dias depois ele obrigou-a a se prostituir pela primeira vez.
- Isto é culpa sua! burra! vadia! – alegou ele. Nem vou contar o desespero da jovenzinha. Longe de casa, sem amor, sem carinho. Sua vida foi difícil e trágica. Uma vida de seu tempo.  
Quando fazia três anos que estava se prostituindo suas lágrimas secaram, e ela esqueceu a causa inicial de seu sofrimento. Estava se habituando a vida que levava, e via pela primeira vez uma possibilidade de prazer em um tipo de vida para a qual ela tinha suas qualidades. “É possível ser feliz”, pensava ela algumas vezes, mas seus dias se consumiam em meio à gente falsa e sem escrúpulos. Lobos famintos, prontos para derramar o sangue dos incautos que ousarem lhes dar confiança.
Uma menina nova tinha chegado para trabalhar com o chefe, mas diziam que ela estava dando problemas. Falavam que ela achava que podia desobedecer impunemente. O Xhefe chamou a jovem Gioconda para vê-la. Chegando a um lugar obscuro, que exala o perfume nauseante da crueldade, Gioconda encontrou esta menina. Ela estava acorrentada com os braços para cima, abertos.
- Solta ela! – mandou o Xhefe. Gioconda fez isto rapidamente. - Agora leva ela ali, e joga ela dentro. – disse ele apontando para uma banheira cheia de água e gelo derretendo. Gioconda se recusou. O chefe disse:
- Como é que é? então você vai me desobedecer?
O chefe jogou as duas na banheira, deixando-as acorrentadas por várias horas na algidez rigorosa da água gelada. A primeira menina desobediente, que já vinha sendo torturada, morreu nos braços de Gioconda. O cadáver gélido ficou abraçado ao corpo vivo de Gioconda por algumas horas ainda. Até que a soltaram, trataram-na e cuidaram-na por dois dias, para que voltasse a se prostituir obedientemente no dia seguinte.
Algumas semanas depois, Gioconda contou para uma colega o que tinha lhe acontecido, e esta lhe perguntou por que o chefe faz estas coisas. A isto respondeu Gioconda, com breves lágrimas descendo por sua face:
- Eu acho que ele quer que lhe obedeçam a qualquer custo... sabe, um dia eu cheguei a me apaixonar por ele...

De volta a história do alien.

Paloma tentou acordar Magda e Agenor, os que sobraram vivos, já que o fisiologista não estava mais neste mundo. Eles conseguiam se mexer. Disseram que foi só o susto da queda. Paloma disse:
- Eu tenho que ir agora. Vocês têm que ficar aqui.
- Nós vamos ficar bem... – disse Magda, a embriologista – mas e quanto a você? Parece que viu um fantasma.
- Você acha? Então... vocês não viram a coisa?...
- Que coisa? – perguntou Magda.
“Isso mesmo, que coisa?”, pensou Agenor.
- Deixa pra lá – disse a policial – ia demorar demais pra explicar! Fiquem aqui!
Paloma subiu as escadas.
Gioconda estava procurando, atenta, por sinais que a pudessem levar ao encontro do refém e da coisa grotesca. Estava em uma pequena praça de alimentação, olhando de um lado para o outro enquanto se perguntava se era seguro se expor ali, ou se tinha que ir devagar. Então ela ouviu o apelo do reitor.
- Socorro! O que é isto, ahhhhh! Socorro! Socorro! Me ajudaaaaaa! Ahhhh!
Fontana riu com uma voz grotesca e monstruosa alienígena demoníaca satânica. Forças sutis poderosas que se manifestam na criação da destruição, na produção do caos, na tirania da desordem. Na escrita dos tempos apocalípticos as armas não cansam de expelir fogo. Morte. Os gatilhos foram acionados. Primeiro Fontana atacou, e depois Gioconda respondeu, mas estavam tão longe um do outro, que ambos erraram o alvo. Fontana carregou o reitor para um andar mais acima, subindo por outra escada. Gioconda foi atrás dele.
Paloma, a mais jovem das duas policiais, estava procurando desesperadamente a pista de Fontana, mas até então apenas “tateava no escuro”. De repente ouviu tiros, e escolheu uma direção para correr. “Será que é a direção certa? o treinamento não foi em vão”, pensava ela. Subindo uma escada similar, praticamente idêntica à outra, chegou à praça de alimentação, aonde reconheceu os estragos das balas. O urro bestial da Vacinali-n reverberou prolongadamente preponderante. Dor, rancor, crueldade, humanidade em parte. Vinha de perto dali adiante.
Paloma soube para aonde seguir, cruzando o longo salão com mesas e cadeiras, e o espaço livre que se estendia ao lado e ao largo das cadeiras e mesas. Na outra extremidade da praça de alimentação, e do espaço livre descrito acima, reconheceu mais estragos produzidos por balas. Subiu a escada que havia a sua direita.
Ao fazê-lo alcançou um longo corredor com salas de aula do lado direito, cheias apenas de cadeiras e carteiras. Do lado esquerdo havia uma grade de cilindros grossos de ferro, pintados de violeta. Eles se constituíam de modo a formar longas linhas horizontais. Em sentido vertical elas somavam-se umas às outras paralelamente, para evitar que uma queda ocorresse. Caminhando pelo corredor até o meio, Paloma encontrou o reitor no chão, rastejando. Ele estava machucado, com um inchaço na cabeça. No chão havia sangue derramado.
- Eu tenho que tirar você daqui! – disse a policial.
- Não! – exclamou o reitor – eu estou bem! você tem que ajudar a sua colega... Ela não vai...
- Espera aqui.
Dizendo isto ela prosseguiu no encalço de Gioconda e da criatura. Legrangée ficou sozinho, ofegante, dolorido, confuso, com medo. “Essa não, que p*&#% é esta? C*%#&”, pensava. Ele foi rastejando, percorrendo o corredor devagar. Parou um tempo e derramou algumas lágrimas pesadas e ressentidas. Então ouviu um barulho intenso. Olhou para o fundo do corredor e viu um brilho poderoso emanar de uma das salas de aula ao fundo. Depois um barulho ensurdecedor, e então os tiros... os tiros. Bang. Bang. Perdeu a conta. Talvez tenham sido três ou cinco. Bang??? Bang??? Bang???. Logo em seguida escutou um guincho sônico violento absurdo e feroz que se espalhou de uma sala de aula no fundo do corredor. Tudo ficou em silêncio depois disso por um breve instante. Mais um tiro ressoou, e tudo ficou quieto. O reitor voltou a rastejar até que chegou a escada e começou a descer com cuidado, rastejando. Antes que ele alcançasse o fim da escada Gioconda chegou correndo esbaforida. Com intento assassino matador em sua direção voaram as balas, mas nem passou perto.
- Cuidado! – gritou ela – Vamos embora daqui!
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Re: Vacinali-N

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